Saramago e o Bule de Chá

“Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos cépticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol numa órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. No entanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer na sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o céptico às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.”

Bertrand Russell, Prémio Nobel da Literatura, in “Existe um Deus?”

As reacções inflamadas e patéticas às declarações, nada novas, de Saramago, sobre a bíblia e a religião, revelam que, 80 anos depois deste escrito do seu nobel colega Russell, parte da sociedade continua a funcionar como a alegoria do bule de chá.

O que as reacções demonstram é que, por muito que procure demonstrar o contrário, religião e tolerãncia não andam de mãos dadas. Os crentes só são tolerantes enquanto não se sentem ofendidos por quem questione a sua fé ou os seus ícones.

Quando a intolerância religiosa e de abrigo moralista transborda para a intolerância social e política, demonstrada por um eurodeputado que, em 15 minutos, passou do anonimato para os holofotes da idiotia, urge lembrar que estamos num estado laico e republicano.

Por isso, esse senhor com responsabilidades políticas e de representação de um estado laico de direito, deveria pôr imediatamente o seu lugar à disposição. Certamente que o PSD terá gente com capacidade e intelectualidade para o substituir. Uma chávena de chá e um bilhete de volta para a terra onde, felizmente, já não se exilam os que falam uma voz diferente da de uma suposta maioria. Ou, segundo a voz corrente, uma maioria (muito) relativa.

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4 Respostas to “Saramago e o Bule de Chá”

  1. lili Says:

    Eu não encontro intolerância, na defesa que os católicos e a Igreja têm manifestado contra as intolerâncias do senhor Saramago. Se o senhor Saramago tem o direito de expressar a sua opinião, porque não terão os visados pelo seu fel de sequer tentar a sua defesa?

    • La Sabonaria Says:

      Cara Lili
      Precisamente, o ponto é que todos têm o direito a expressar a sua opinião, incluindo aqueles que não concordam com a visão de Saramago. Não penso que ele se tenha dirigido ou atacado os crentes, mas tão só à Bíblia como fundamento de uma doutrina religiosa e de uma determinada matriz social e moral (onde aliás eu me insiro, naturalmente). Mas se começarmos a convidar aqueles com quem não concordamos a mudar de país e mesmo de nacionalidade, estamos a entrar no campo do fundamentalismo. E continua a provar-se que a religião é capaz de atiçar os comportamentos mais radicais e inumanos…

  2. lili Says:

    Eu generalizei, e só defendi a liberdade de expressão para todos.

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